Livros para o Outono I - 3 Épicos

Olá! Chegámos à minha estação favorita.

Por isso, e sem mais demoras, inauguro este espaço com sugestões de livros para ler no outono. São todos livros que que fazem parte da minha biblioteca, que li e de que gosto muito.

Dividi as minhas sugestões em 3 grupos: Épicos, Idade Média, Dark Academia. E hoje é o dia de partilhar as minhas escolhas para o primeiro grupo.


I - Épicos

No outono começamos a abrandar e a quietude alimenta a imaginação. Há uma certa nostalgia que vai bem com narrativas mais longas mas empolgantes (afinal o outono é uma espécie de recomeço) em que nos podemos perder com alguma demora. O outono é, ainda, um período de transição e reflexão, tal como as grandes sagas. Escolhi 3 épicos que adoro e que, para mim, têm um ambiente outonal. Lembro-me de os ler e imaginar mundos em tons quentes em que a reflexão acerca da condição e do destino humanos são centrais.

Épico de Gilgames

(tradução, introdução e notas de Francisco Luís Parreira)

Gilgames é “Aquele que testemunhou o abismo” e é assim que tem início este poema, considederado a narrativa épica mais antiga da humanidade: terá sido composta em cerca 2100 ac (há 4000 anos!), na Babilónia. Esta é a história da jornada de Gilgames, rei da cidade de Uruk (atual Iraque), na antiga Mesopotâmia, à procura da imortalidade. É a saga do herói imperfeito que se vê confrontado com a mortalidade, a memória e com o luto através de uma das maiores dádivas humanas: a amizade.

Tal a uma esposa, amaste-a, acariciaste, abraçaste: um amigo possante virá até ti, para ser amparo do amigo;
poderoso entre os demais, pleno de vigor, a sua força é como a rocha que cai do céu.
Tal a uma esposa, hás-de amá-lo, acariciá-lo, abraçá-lo, e o seu poder, muitas vezes, ser-te-á salvação.
Favorável e precioso é, pois, o teu sonho! (Épico de Gilgames: 53)

O amigo de Gilgames é Enkidu e é uma das minhas personagens literárias favoritas. Juntos (uma parelha que me fez pensar bastante em Frodo e Sam de O Senhor dos Anéis, como mostra a citação acima) enfrentam “monstros”,como Humbaba (o guardião da Floresta dos Cedros, que terá inspirado o filme do Studio Ghibli A Princesa Mononoke) e o Touro do Céu, enviado pela deusa do amor e da guerra, associada ao planeta Vénus, Istar como castigo pela arrogância da dupla que rejeitou a interesse romântico da deusa e enfrentou a sua ira.

É um texto fragmentado e repetitivo, mas que me encantou muito pela vulnerabilidade dos heróis e pela janela que abre para uma civilização e cultura tão distante e importante. O Épico de Gilgames também nos mostra como temas tão presentes nas culturas helénica e bíblicas têm uma origem muito anterior: desde o Jardim do Éden, à criação do ser humano, ao “corrompimento” do homem devido à sedução feminina que desvenda conhecimento e consciência, até ao grande dilúvio.

Épico de Gilgames é, ainda, de forma indireta, um texto metamaterial. A sua composição e preservação estão intimamente ligadas ao desenvolvimento da escrita e da noção de arquivo, condições imprescindíveis não só para o alcance da desejada imortalidade (inscrição enquanto construção transmissão de memória) por Gilgames, mas também para a própria literatura.

Beowulf

(tradução de Angélica Varandas e Luísa Azuaga)

Beowulf é um poema épico anglo-saxónico, o mais antigo da literatura inglesa, de autoria anónima cristã, num contexto de transição profunda na Inglaterra anglo-saxónica, entre os séculos VIII e XI. O território era então formado por vários reinos germânicos, como a Nortúmbria, a Mércia e o Wessex, e a sua cultura resultava do encontro entre tradições orais pagãs e a crescente influência do cristianismo. A narrativa integra mito, memória e história, refletindo um mundo em transição entre o paganismo e o cristianismo.

Este épico narra as batalhas do guerreiro Beowulf contra o monstro Grendel, a sua mãe e, mais tarde, um dragão que encontra ecos no Smaug de The Hobbit, de Tolkien. A história passa-se na Escandinávia e acompanha o herói, que viaja até à Dinamarca para libertar o reino do rei Hrothgar do terrível monstro Grendel. Grendel e a sua mãe que o defende e vinga são descritos como descendentes de Caim (e voltamos às temáticas bíblicas): representam o mal em contraste com o ideal de heroísmo humano.

Tal como o Épico de Gilgames, Também Beowulf é cativante reflexão sobre a a inevitabilidade da morte e a memória narrativa como imortalidade, ou seja, a tragédia da condição humana, como defende Tolkien, tradutor do poema e autor de textos teóricos sobre Beowulf:

Beowulf is not, then, the hero of an heroic lay, precisely. He has no enmeshed loyalties, nor hapless love. He is a man, and that for him and many is sufficient tragedy. (Tolkien, The Monster and the Critics, and Other Essays: 19).

Mas, para mim e acima de tudo, é também uma reflexão sobre monstruosidade e alteridade. O que é um monstro? É uma pergunta que subjaz uma procura por uma definição de humanidade; o símbolo daquilo que é mais trágico do que a tragédia humana e que, assim, “assegura” a humanidade do herói? A figura do monstro é instrumental. Mas em Beowulf, talvez apenas numa leitura contextualizada na nossa contemporaneidade, o que toca mais não é a coragem do herói, mas a empatia que desenvolvemos para com o sofrimento dos monstros. A mãe de Grendel, em particular, introduz um dos primeiros exemplos de alteridade feminina e ambígua, uma representação de emoção, vingança e luto. A maternidade e a natividade enquanto força e resistência. Afinal, o nosso herói encontra-se em terras ancestrais e luta contra seres nativos que vêm o seu espaço ocupado. Em Beowulf são o colonialismo e o patriarcado os produtores de “monstros” humanos e inumanos.

Na verdade, hoje, o texto é lido tanto como fundamento da literatura inglesa como objeto de leitura crítica moderna feminista, pós-colonial e psicanalítica, pela forma como constrói o “outro”, o corpo, a fé e o poder. Um tema que ecoará em séculos de literatura inglesa: da Lady Macbeth (Macbeth), à Bertha Mason (Jane Eyre), até à Criatura de Frankenstein, seguindo pela ficção gótica e pós-colonial dos séculos XX e XXI.

The Lord of the Rings

O Senhor dos Anéis, Tolkien

The Lord of the Rings não é um poema épico, uma vez que é escrito em prosa, mas é considerado um épico moderno e o texto fundacional do género da fantasia. Publicado em meados do século XX por J. R. R. Tolkien, o livro (que foi publicado em três partes) tem inspiração na mitologia nórdica e germânica, no Cristianismo (já vemos relações com Beowulf, que foi outra grande inspiração para Tolkien), mas também na tradição épica clássica com a exploração de temas e motivos universais, como a noção de herói e de humanidade.

E The Lord of the Rings não podia começar de forma mais outonal, no campestre Shire, onde está a ser organizada a festa de aniversário conjunta de Bilbo e Frodo Baggins. Uma festa que, como qualquer atividade levada a cabo pelos hobbits, preza muito o conforto e a domesticidade. Tudo o que se deseja em dias de outono!

Logo à partida, temos um espaço e personagens pouco convencionais para o início de uma jornada épica, mas à medida que a narrativa se desenvolve, o universo épico vai-se revelando. A história acompanha um grupo heterogéneo de heróis composto por 4 hobbits (Frodo, Samwise, Merry e Pippin); 2 homens (Aragorn and Boromir); 1 feiticeiro (Gandalf), 1 elfo (Legolas) e 1 anão (Gimli). Esta irmandade, a certa altura liderada por Frodo, tem como missão destruir o Anel e derrotar o vilão Sauron. Para isso, embarcam num longa viagem pela Terra Média, repleta de aventuras, batalhas e dinâmicas pessoais e interpessoais intensas.

Se, por um lado, heróis como Aragorn encarnam o ideal clássico do rei e do guerreiro, os membros da restante irmandade redefinem a própria iconografia heróica: são pautados por falhas humanas, mas também por valores de amizade e empatia. E, embora Tolkien seja alvo de críticas pela quase ausência de representação feminina, a verdade é que ele escreve 3 grandes personagens femininas e que não se resumem a objetos de desejo das personagens masculinas, nem a “monstros a derrotar”. São elas Arwen, Éowyn e Galadriel, personagens que transformam o papel das mulheres na narrativa épica.

Tal como em Beowulf, a figura do “monstro” desempenha um papel instrumental e revelador da humanidade. Em O Senhor dos Anéis, esse papel cabe a Gollum/Sméagol. Ele é a representação da tragédia e da degradação humana (ou hobbitica) e a personificação da corrupção provocada pelo poder do Anel. Gollum é, simultaneamente, o “monstro” a superar e o espelho do que Frodo se pode tornar. Esta dualidade e o reconhecimento da sua condição revelam o quão ténue, se não inexistente, é a fronteira entre a monstruosidade e humanidade. Se Beowulf, a “monstruosa” mãe de Grendel não consegue gerar compaixão no herói, em O Senhor dos Anéis, Gollum é
muitas vezes recetor da empatia dos heróis tolkianos, nomeadamente, de Gandalf que, ao desejo de vingança que Frodo sente, responde com um apelo à compaixão:

Deserves it! I daresay he does. Many that live deserve death. And some that die deserve life. Can you give it to them? Then do not be too eager to deal out death in judgement. For even the very wise cannot see all ends. I have not much hope that Gollum can be cured before he dies, but there is a chance of it. And he is bound up with the fate of the Ring. My heart tells me that he has some part to play yet, for good or ill, before the end; and when that comes, the pity of Bilbo may rule the fate of many - yours not least. In any case we did not kill him: he is very old and very wretched. The Wood-elves have him in prison, but they treat him with such kindness as they can find in their wise hearts. (Tolkien, The Fellowship of the Ring: 60)

Gandalf reconhece que, tal como Gollum, sabe que não iria resistir à tentação do poder que o anel que lhe daria. Afinal, um dos seres mais honrosos e sábios não é tão diferente de Gollum:

No!’ cried Gandalf, springing to his feet. With that power I should have power too great and terrible. And over me the Ring would gain a power still greater and more deadly. His eyes flashed and his face was lit as by a fire within. ‘Do not tempt me! (Tolkien, The Fellowship of the Ring: 61)

E, tal como no Épico de Gilgames, no centro de uma mundivisão e de concepção de humanidade em eminente colapso, ergue-se um dos maiores valores humanos: a amizade. A relação entre Frodo e Sam reflete e aprofunda a dinâmica entre Gilgames e Enkidu: uma dupla alicerçada no companheirismo e afeto que dá sentido e coragem às provações heróicas/humanas.

Quando Frodo se vê confrontado com a tarefa dificílima que tem em mão, o hobbit coloca uma questão que o acompanhará ao longo da sua jornada:

‘But where shall I find courage?’ asked Frodo. “That is what I chiefly need.
‘Courage is found in unlikely places,’ said Gildor. (Tolkien, The Fellowship of the Ring: 85)

Eu acho que esse local improvável é a amizade. É a capacidade de vulnerabilidade e de confiança (ou seja, a recusa de ideia de heroicidade como individualidade) que dá sentido à vida perante o abismo da mortalidade.

Estes três épicos mostram-nos a importância da empatia e da conexão humana. São narrativas densas e reconfortantes, perfeitas para os dias que começam a ficar mais curtos e frios.

Já leram alguma destas obras? Ficaram com vontade de ler alguma? Contem-me nos comentários!

No próximo artigo desta trilogia de leituras outonais, vamos continuar a viagem pelo passado, até à Idade Média. A ponte já está construída.

Até lá, boas leituras!

 

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